terça-feira , setembro 25 2018
Capa / África / Um Rei Negro no Brasil
Um Rei Negro no Brasil

Um Rei Negro no Brasil

Ilê Ifé se fez presente no Brasil com o líder espiritual Ooni Adeyeye Enitan Oguwusi, representação máxima da Monarquia Iorubá. As cidades de Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, foram palco de uma comitiva com mais de 100 representantes de um dos povos mais antigos da Nigéria, chamada de o berço da civilização.

Salvador foi a primeira cidade a festejar a presença de um Rei negro, que trouxe palavras de esperança e amor para a população brasileira, em momento sócio, político e religioso imerso a tantos conflitos.

Com um histórico que remonta a presença massiva de pessoas trazidas escravizadas para o Brasil, vindas da Nigéria e em particular de Estados onde o povo Iorubá possuía forte presença, Salvador foi reconhecida como a cidade Iorubá das Américas e por intermédio de Lei Municipal de número 9.371/2018, também foram irmanadas, criando pontes para cooperações técnicas, através de intercâmbios culturais, artístico, social, turístico e econômico.

O Rio de Janeiro encontra-se em processo similar, tramitando pela Câmara Governamental, Lei de semelhante estrutura, que irá beneficiar para além das cidades, os países. O Ooni foi recebido na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), onde recebeu a chave da cidade e falou ao público. No mesmo dia, esteve presente no Teatro Municipal comunicando suas impressões ao público, após ter absorvido um pouco da cultura local, apresentada pela equipe do Instituto Black Bom, contando através de um processo histórico cultural, narrativas que conectam a cidade e á população da cultura Iorubá.

O público local e a comitiva do Rei, se deliciaram com a dança-afro da coreógrafa Eliete Miranda, o jongo do grupo Afrolaje, com a apresentação dos jovens de diferentes comunidades com o Passinho Carioca utilizando o funk, expressão musical regional e a presença das crianças da Escola de Samba da Portela.

No dia seguinte, visitou o Cais do Valongo, Patrimônio Histórico da Humanidade nomeado pela Unesco desde de 2017, local de chegada ao Rio de Janeiro de africanos escravizados, por onde acredita-se terem aportado mais de 2,5 milhões de pessoas. Esse grupo que aqui chegou, deixou-nos seus costumes, saberes e crenças.

O povo brasileiro absorvido pelas diferentes culturas, remanescentes do corpo africano que formou a sociedade local, tornou-se um país, cujo sincretismo religioso faz-se presente. Sendo o Ooni um forte representante da Religião de Matriz Africana, o encontro com as Ialorixás e Babalorixás foi um grande marco em todas as cidades pelas quais ele visitou. Suas palavras foram sábias e expressaram força para todos que tem passado pelas dificuldades da intolerância religiosa.

Belo Horizonte a última cidade a receber o Rei Iorubá, o fez no Palácio das Artes com a presença de intelectuais, acadêmicos, religiosos, políticos e representantes da sociedade civil com os mesmos objetivos de apresentar a forte cultura do povo do Ooni, presente em Minas Gerais e estreitar relações em diversos segmentos.

A educação foi um dos eixos de interesse das relações existentes entre o Brasil e a Nigéria. Alunos de diferentes escolas puderam conhecer um pouco mais sobre a história da África e saber da existência de reis e rainhas, contemplando um universo, muitas vezes omisso no espaço educacional, ainda que leis federais promulguem a importância do ensino da história da população negra no país.

A comitiva do Rei composta por professores catedráticos, também tinha em sua composição a Rainha do Congo e outros seis Reis. Este cenário para crianças, jovens e professores, foi uma aula de história ao vivo e a cores, considerando a falta de acesso a esta realidade. Parcerias acadêmicas foram firmadas e com certeza, a vinda do Ooni de Ifé trará novos ares de conhecimento a ambas as populações. A irmandade irá se firmar para além da cultura e religião. Conhecimento e trocas acadêmicas serão um laço de fortalecimento entre as universidades locais e seu corpo docente e discente. O país e a população brasileira está aberta a manter elos de ligação com diferentes países africanos e dispostos a estreitar os laços já existentes, que contribuíram para forjar uma sociedade diversa, bonita e abrangente em sua cultura e formação social.

Daise Rosas da Natividade Universidade Federal do Rio de Janeiro

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*