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Lutas Vívidas

Lutas Vívidas

Por Daise Rosas da Natividade*

Uma mulher, negra, cientista política, moradora de favela, ciente e consciente das agruras das minorias chamada Marielle, teve a vida ceifada por questões políticas. Forjada na estrutura social de espaços onde o respeito ocorre entre as pessoas de sua comunidade, nas relações sociais entre vizinhos e o desrespeito aflora daqueles considerados de fora, Marielle rompeu os espaços considerados seus e ganhou o mundo do olhar crítico e transcendeu em sua morte o país em que nasceu.

 

O Brasil, escolhido para abrigar as Diretrizes Nacionais tendo como parâmetro o Modelo de Protocolo Latino Americano de Investigação de Mortes Violentas de Mulheres por Razões de Gênero em função de sua quinta posição de mortes violentas contra mulheres, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) dentre 83 países pesquisados.

 

Quando a lupa visualiza o perfil étnico das mulheres assassinadas, identifica-se o crescimento de 54% de mulheres negras, vítimas do feminicídio na década de 2003 a 2013. “Femicídios são assassinatos cruéis, marcados por impossibilidade de defesa da vítima, torturas, mutilações e degradações do corpo e da memória.” , assim esclarece Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres no Brasil.

 

Minar a voz de Marielle, com este atentado a sua vida, quando ela estava indefesa foi a perspectiva dos assassinos, mas Marielle ecoou para além do seu espaço político, que foi a Maré, para além da Câmara dos Vereadores, para além do Brasil e se tornou semente, para muitas de nós mulheres negras, reagirmos as atrocidades diárias, não somente do estruturante racismo, que nos assola diariamente, mas dos espaços que não nos querem fazendo parte.

 

Marielle dizia “ocupar a política é fundamental para reduzir as desigualdades que nos cercam”. Foi o que ela fez. Ocupou e com maestria, incomodou muito e a muitos. Outros atores sócio-políticos, apontaram os problemas existentes nesta ”Cidade Maravilhosa” considerada mundo afora, mas que não suporta ter uma mulher negra, a colocar o dedo na ferida, de forma tão veemente, tão cirúrgica quando lhe era permitido. O sexismo de um país patriarcal, poda com truculência suas árvores frondosas e com frutos.

 

O feminicídio tem a sua gravidade pela peculiaridade por afetar a mulher especificamente pela sua própria condição de existência. No Brasil apesar da recente Lei 13,104/2015 e da Lei Maria da Penha 11.34-/2006, que tenta tirar atos de violência contra a mulher do ostracismo, os operadores da Lei, ainda não estão efetivamente aplicando-as, considerando que apenas 33% dos homicídios contra mulheres houve a aplicação da Lei nos anos de 2006 a 2011.

 

Cabe dizer que MARIELLE FRANCO, não fará parte apenas de nossa memória, mas sim de nosso SER. Seremos Luta constante, defensoras de nossos direitos, assim como foi essa mulher negra, política, favelada, ciente e consciente de seus direitos e dos direitos dos outros.           

 

* Daise Rosas da Natividade é formada em Psicologia com ênfase no campo social. Coordenou e atuou por três anos o Programa Trabalho e Empreendedorismo da Mulher da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República em Brasília, atuando no Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Junto a Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado do Rio de Janeiro, qualificou em diversos municípios com mais de 800 mulheres. É Afroempreendedora, Co-Fundadora do Instituto de Beleza Les Etoiles e da Black Pages Brazil, empresa digital que divulga produtos e serviços de Afroempreendedores e é coordenadora do programa SOMA, que presta mentoria para jovens mulheres empreendedoras. Daise é uma das embaixadoras globais de empreendedorismo, da Vital Voices, além de ser mãe de dois jovens incríveis e avó de uma linda menininha de 3 meses.

Fonte: https://alari.fas.harvard.edu/news/lutas-v%C3%ADvida

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