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DOSSIÊ: “História das Mulheres no Ocidente”

DOSSIÊ: “História das Mulheres no Ocidente”

"História das Mulheres no Ocidente" .

ESCREVER UMA HISTÓRIA DAS MULHERES:

relato de uma experiência

* Michelle Perrot**

Escrever uma história das mulheres é um empreendimento relativamente novo e revelador de uma profunda transformação: está vinculado estreitamente à concepção de que as mulheres têm uma história e não são apenas destinadas à reprodução, que elas são agentes históricos e possuem uma historicidade relativa às ações cotidianas, uma historicidade das relações entre os sexos. Escrever tal história significa levá-la a sério, querer superar o espinhoso problema das fontes ("Não se sabe nada das mulheres", diz-se em tom de desculpa). Também significa criticar a própria estrutura de um relato apresentado como universal, nas próprias palavras que o constituem, não somente para explicitar os vazios e os elos ausentes, mas para sugerir uma outra leitura possível. Ambiciosa, com certeza, esta pesquisa tem se desenvolvido no mundo ocidental há vinte anos. Com efeito, há uma teoria e uma historiografia da história das mulheres a partir das quais se pode elaborar os primeiros balanços críticos e se questionar sobre o sentido, as dificuldades, os efeitos destas pesquisas. Seria especialmente interessante elaborá-los, nos diversos espaços nacionais, com um espírito comparativo e aberto. Gostaria de fazer isto, aqui, me baseando na experiência francesa, sem pretensões de abraçá-la na sua totalidade, isto é, me apoiando mais especificamente na Histoire des Femmes en Occident.

Embora esta obra tenha sido traduzida em muitas outras línguas e com versões até bastante diferenciadas (por exemplo, a espanhola), levarei em conta apenas a experiência francesa: o que ela significa no estrito campo das pesquisas históricas e no campo mais amplo das ciências humanas ? O que ela significa no que concerne ao feminismo e às relações entre os sexos na sociedade francesa ? Tentarei inicialmente contextualizar tal experiência. Em seguida, evocarei sua gênese. Por fim, tratarei de alguns dos problemas e debates gerados por ela em um recente colóquio.

I. Situações

Algumas palavras iniciais de apresentação: primeiro, do meu itinerário intelectual2 enquanto testemunho; a seguir, da obra coletiva Histoire des Femmes en Occident enquanto objeto teste.

I. 1. No que me diz respeito, fui inicialmente - há tempos e ainda hoje - uma historiadora do âmbito social e do mundo operário. Pertenço a uma geração cujos mestres foram CamilleErnest Labrousse e Fernand Braudel: as conjunturas e as estruturas, as crises e a economia mundial, a longa duração camponesa e o movimento operário, esses foram nossos primeiros horizontes. Na atualidade dos anos 50, a classe operária era a grande personagem, expressão da injustiça, chave do nosso porvir e do porvir do mundo. Fazer sua história era uma maneira de nos aproximarmos dela. Aliás, essa posição não era especificamente francesa; estão compreendidas nela, obras como a de E. P. Thompson, recentemente desaparecido (agosto de 1993), e a de E. Hobsbawn. Em outro sentido, tal convicção era propriamente feminina, pois, em virtude da sua longa exclusão do âmbito político, as mulheres estavam mais vinculadas ao âmbito social, onde desempenhavam sem muitas dificuldades a tarefa maior da esfera política (George Sand, no século XIX, não pensava de outra maneira). Nessas condições, a diferença entre os sexos conta menos do que a luta de classes e a opressão dos colonizados. As palavras de Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo surge em 1949) tiveram inicialmente menos impacto do que seus atos. Por outro lado, muitas historiadoras do âmbito social demonstraram grande interesse ou investiram logo em seguida na história das mulheres, como se, após uma transfusão de energia, esses agentes anêmicos se tornassem popstars fulgurantes; o mesmo ocorreu com as categorias de análise. Com efeito, a história das mulheres se inscreve em uma genealogia das representações e da linguagem.

I. 2. Consideremos, agora, a Histoire des Femmes en Occident enquanto objeto-testemunha e ponto de cristalização das novas pesquisas. É uma aventura editorial (a expressão é ambiciosa, mas cada um tem as aventuras que pode!), cujo desenrolar é o seguinte: a iniciativa partiu da editora italiana Laterza, empresa de tipo familiar muito ativa nos setores das Ciências Humanas e Sociais, conhecida também por sua resistência ao fascismo no entre-guerras, suas ligações com a esquerda intelectual e ávida por inovações. Laterza publicara com muito sucesso a Histoire de la Vie Privée (publicação Seuil), dirigida por Philippe Ariès (falecido em 1985) e Georges Duby; quanto a mim, dirigira o tomo IV (século XIX) desta coleção. Laterza procurou Georges Duby na primavera de 1987, este, por sua vez, me contactou e eu, consultei as historiadoras com as quais já trabalhava há muitos anos neste campo.

Após hesitações e discussões, aceitamos. Era um desafio, ao mesmo tempo feminista e europeu. O fato de que a iniciativa tivesse sido masculina verdadeiramente não nos incomodava. Pelo contrário, víamos isso como um sinal de consideração para com o nosso trabalho, como uma ocasião ou meio de sair do gueto que nos era reservado sempre que possível. Aliás, esses "homens" não eram quaisquer homens! Georges Duby é o historiador prestigiado que se conhece. Já desde alguns anos introduzira a história das mulheres na sua obra3 e nos seus cursos ministrados no Collège de France, convencido de que as relações entre os sexos eram uma dimensão maior da história e do nosso tempo. Sublinho esse aspecto apenas para responder às objeções posteriores a nós dirigidas por aquelas que teriam desejado uma total autonomia feminina em uma pesquisa desse tipo. Isto sem dúvida evidencia nossa debilidade objetiva no que concerne aos campos institucional e editorial, talvez uma certa falta de ambição que mereça análise, mas também o itinerário que, por força ou por escolha, havíamos seguido: a integração mais do que a ruptura.

Retornemos, agora, à HDFO (abreviaremos de agora em diante Histoire des Femmes en Occident). Havíamos aceitado a proposta de Laterza. Pauline Schimdt-Pantel, Chistriane Klapisch-Zuber, Arlette Farge, Geneviève Fraisse, Françoise Thébaud, cada uma delas aceitou dirigir um dos cinco volumes desta Histoire. Natalie Zemon Davis, por sua vez, aceitou de bom grado colaborar com Arlette Farge no que concerne ao período moderno. A obra foi realizada de 1988 a 90 e publicada simultaneamente na Itália e na França entre 1990 e 92. Setenta e dois colaboradores (60% de franceses e 75% de mulheres) escreveram cerca de três mil páginas. A coleção está em processo de tradução em seis outras línguas (a edição americana sairá seguramente pela Harvard University Press), tornando-se uma obra que daqui para a frente tende a nos escapar. Prova disso é o fato de que nossas escolhas suscitaram debates, aos quais retornarei no momento oportuno. Tendo esboçado o contexto dessas pesquisas, gostaria de traçar, voltando um pouco para trás, sua genealogia nos campos historiográfico, científico e feminista.

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