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CAROLINA MARIA DE JESUS

CAROLINA MARIA DE JESUS

Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914 na cidade de Sacramento, perto de Araxá e da Serra da Canastra no Triângulo Mineiro numa comunidade rural onde seus pais eram meeiros. Mulher negra, de família humilde, estudou apenas dois anos por ajuda de uma senhora filantropa da cidade, de quem ela e a mãe eram lavadeiras. Matriculada em um colégio particular, aprendeu a ler e escrever, não o suficiente para ser considerada alfabetizada, porque precisou deixar os estudos e seguir a mãe em busca de melhores condições de vida em outras cidades. De rara inteligência, praticamente aprendeu a ler sozinha, por isso foi tratada como pária durante toda a infância, e sua personalidade agressiva contribuiu para os momentos difíceis pelos quais passou.

Certa vez ainda em uma missa onde estava presente, devido a ser a única negra no local, foi acusada de roubar 100 mil-réis. Foi presa por isso e apanhou. Como o dinheiro não aparecia, a mãe de Carolina também foi presa e a jovem chegou a pedir a morte por isso. Posteriormente o padre encontrou o dinheiro e elas foram soltas, mas com vergonha Carolina nunca mais voltou para casa. Convidou a mãe para irem embora, mas a mãe declinou da ideia, ficou pelo caminho, Carolina seguiu viagem a pé para São Paulo. Apesar do episódio, ao longo da vida, ela foi uma católica devota, e em seu diário muitas vezes faz referências religiosas.

Em São Paulo, começou a trabalhar na casa do médico Euryclides de Jesus Zerbini, que a deixava usufruir de sua biblioteca nos dias de folga, adorava ler. Tida como altiva e metida por pessoas que conviveram com ela, Carolina teve diversos empregos e envolvimentos amorosos quando jovem. Era descrita como namoradeira e evitou o casamento por ter presenciado muitos casos de violência doméstica, preferiu permanecer solteira. Engravidou então de seu primeiro filho, João José, e devido a isso, não pode mais trabalhar como doméstica. Foi posta na rua.

Grávida e sem trabalho, foi recolhida junto com outros moradores de rua por um político local e despejada na favela do Canindé, nos arredores do recém-construído estádio da Portuguesa. Por isso o livro “Quarto de Despejo”, pois eles eram os despejados. Construiu com as próprias mãos um barraco de um cômodo, usando madeira, lata, papelão e qualquer coisa que pudesse encontrar.

Ela saía todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas. Como a alimentação era escassa, dizia que gostava de escrever quando “tinha paz”, ou seja, quando havia comida em casa. Escrevia sobre seu dia-a-dia, sobre como era morar na favela. Isto aborrecia seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e por isso se sentiam desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles.

Em seu diário, ela detalha o cotidiano dos moradores da favela e, sem rodeios, descreve os fatos políticos e sociais que via. Ela escreve sobre como a pobreza e o desespero podem levar pessoas boas a trair seus princípios simplesmente para assim conseguir comida para si e suas famílias.

Carolina jamais se resignou às condições impostas pela classe social a qual pertencia. Em uma vizinhança com alto nível de analfabetismo, saber escrever era uma conquista excepcional. E ela era firme com os estudos dos filhos, se virava como podia para pagar aulas de reforço, passagens, frequentar conselhos de classe.

Carolina escreveu poemas, romances e histórias. Um dos temas abordados em seu diário foram as pessoas do seu entorno; ao ver muitas pessoas do seu círculo social sucumbirem às drogas, álcool, prostituição, violência e roubo, a autora descrevia a si mesma como alguém muito diferente dos outros favelados, e afirmava “que detestava os demais negros da sua classe social”. Seu excesso de altivez incomodava pessoas semelhantes, da mesma classe social. Na favela, ela evitava misturar-se aos vizinhos assim como procurava não deixar os filhos terem contato. Era uma relação de convivência hostil: ela os desprezava e eles a detestavam.

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas, da extinta “Folha da Noite” apareceu na favela para uma reportagem. Até então, a favela era um fenômeno relativamente novo na arquitetura urbana da cidade. O objetivo era passar uma semana no lugar para conhecer a realidade dos moradores. “Olhava uns marmanjos brincando no playground quando apareceu uma mulher esculachando, dizendo que se eles não caíssem fora, ia botá-los no livro”, lembra Dantas. “Fui perguntar qual livro. Como era esperta, logo viu uma oportunidade.”

Carolina levou o repórter ao seu barraco, onde lhe mostrou sua pilha de cadernos. “A história que eu buscava já estava escrita com furor, revolta e às vezes até com lirismo, em mais de vinte cadernos encardidos, pela favelada Carolina Maria de Jesus. Era um diário em que ela contava a sua e a miséria dos demais que ali viviam. “O meu projeto de escrever uma reportagem que mostrasse a favela ‘por dentro’ terminava ali. De meu, na reportagem, só o texto de abertura, de introdução ao tema que ficou por conta de Carolina. A reportagem reproduzia trechos de seu diário”, explica Dantas em depoimento publicado no livro “Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável”, do historiador, professor e escritor Joel Rufino dos Santos.

Uma segunda reportagem sobre o diário foi publicada quatro anos depois, em 1959, quando Audálio Dantas transferiu-se para a revista “O Cruzeiro”, a mais importante do Brasil à época. A repercussão foi grande, e o diário foi editado em forma de livro em 1960. O título, “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, foi extraído da frase do diário: “A favela é o quarto de despejo da sociedade”. O sucesso foi imediato em todo o Brasil, e no exterior, inclusive pautando veículos de comunicação internacionais como “Paris Match”, “Le Monde” e “Time Life”. A obra foi reimpressa sete vezes em 1960, no total vendeu 80 mil exemplares e foi traduzida para 14 línguas em 20 países.

Carolina virou celebridade e mudou-se para um sobrado de três andares no bairro de Santana. Brigou com todos os vizinhos em Santana, “eles a receberam mal”, lembra Dantas. Lançou mais três livros: “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome” e “Provérbios”. Viajou pelo Brasil e o exterior, tornou-se ícone de rapazes e moças entre 17 e 30 anos, principalmente líderes estudantis, jornalistas, militantes de esquerda, críticos da realidade das mazelas sociais das quais Carolina era representante. No entanto, do estrelato ao esquecimento, poucos anos se passaram. Passada a novidade foi rejeitada por todos.

Como era considerada pouco politicamente correta, embora escrevesse sobre as mazelas sociais dela e da comunidade onde residia, foi considerada para muitos uma alienada, pois se colocava quase sempre do lado contrário ao da sua condição de mulher negra favelada.

Outro motivo desfavorável foi o momento político pouco propício em que sua obra passou a ser conhecida, praticamente coincidente com o Golpe Civil-Militar de 1964, que instaurou uma ditadura civil-militar que durou mais de 20 anos. A estética da pobreza e a quebra do mito da democracia racial não eram mais interessantes a um regime que exaltava o Brasil, do “Ame ou deixe-o”.

Ao rasgar máscaras sociais, mostrando a desunião e os preconceitos dos pobres com eles mesmos e os defeitos da sociedade brasileira, era quase zero a chance de manter-se famosa. Para a direita ela não servia por expor a miséria, para a esquerda porque não queria saber de luta social.

Os últimos momentos de fama foram vividos em 1963. Três anos depois, voltou a catar papel. Juntou as economias que sobraram e comprou um pequeno sítio em Parelheiros, onde viveu sozinha até 1977, quando morreu aos 68 anos. Desse tempo, a filha Vera Eunice guarda as piores memórias: “Passamos outro tipo de fome, pois conhecemos a fartura. Tinha 13 anos quando minha mãe voltou a catar lixo”.

Carolina nunca parou de escrever, até sua morte em 1977, decorrente de uma crise de asma.

“Quando conseguia dinheiro, ela voltava para casa feliz, com o pão, e escrevia noite adentro. Dizia que a noite lhe trazia ideias”, diz a filha.

Para o ocidente liberal e capitalista, seu primeiro livro retratava um sistema cruel e corrupto reforçado durante séculos por ideais colonizadores presentes nas dinâmicas sociais da população. Já para os leitores comunistas, suas histórias representavam perfeitamente as falhas do sistema capitalista no qual o trabalhador é a parte mais oprimida do sistema econômico.

Como é observado pelo historiador José Carlos Sebe, “traduções dos seus diários em classe foram utilizadas por diversos especialistas estrangeiros sobre o Brasil, durante anos.”; isso indica a importância mundial do seu papel como fonte primária sobre a vida nas favelas. E o autor Robert M. Levine descreve de que modo “a palavra da Carolina deu vida a uma parte da América Latina pouco estudada nos livros didáticos tradicionais.”

A literatura de Carolina Maria de Jesus continua viva, até porque sua produção compreende mais de cinco mil páginas, entre cadernos, poemas, contos, romances, peças de teatro, tudo microfilmado na Biblioteca Nacional, fora inúmeras caixas de papéis avulsos guardadas pela filha, a maioria de todo esse material é inédita.

Sem dúvida, Carolina contribui para nossa literatura, acredita Conceição Flores. “É a rasura do cânone, a inclusão de uma voz de alteridade na literatura brasileira.

Livros publicados:

“Quarto de despejo: diário de uma favelada” (1960)
“Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada” (1961)
“Provérbios” (sem data)
“Pedaços da fome” (1963)
“Diários de Bitita” póstumo (1982)

Fontes:

Jornal Mulier – www.jornalmulier.com.br.

http://www1.folha.uol.com.br/…/1550499-escritora-carolina-m…

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_de_Jesus

Cultne acervo – Carolina de Jesus – Coletivo Carolinas

Rede TVT – Carolina Maria de Jesus: filha fala sobre vida e obra da escritora

“Chegou o carro para levar a filha da Leila. Ela começou a chorar. Assim que a criança saiu a Leila foi beber. O que fico admirada é das almas da favela. Bebe, porque estão alegres. E bebem porque estão tristes. A bebida aqui é um paliativo. Nas épocas funestas e nas alegrias.” 
Carolina Maria de Jesus

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