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Angela Davis, ícone do movimento negro

Angela Davis, ícone do movimento negro

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Angela Yvonne Davis, mais que pioneira, é um ícone do movimento negro e de mulheres. Ela alcançounotoriedade mundialna década de 1970 por sua luta pelos direitos das mulheres, contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos e por ter sido personagem de um dos mais polêmicos e rumorosos julgamentos criminais da recente história americana.
Angela nasceu no Alabama, um dos estados mais preconceituosos do sul dos Estados Unidos em 26 de janeiro de 1944, na cidade de Birminghan. Desde cedo conviveu com humilhações de cunho racista.
Leitora voraz, aos 14 anos participou de um intercâmbio colegial que oferecia bolsas de estudo para estudantes negros sulistas em escolas integradas do norte do país, o que a levou a estudar no Greenwich Village (NY), onde se envolveu com uma organização de jovens comunistas.
Na vida estudantil Angela conquistou outras bolsas de estudos: fez  Literatura Francesa na Universidade de Massachussetts, pós-graduou-se na Universidade de Sorbonne, em Paris. E, na Universidade Goethe, em Frankfurt (Alemanha), aprofundou-se no estudo do comunismo e das obras de Karl Marx, que marcaram toda sua trajetória, incluindo o início da carreira profissional como professora de Filosofia.
Luzes e expulsão
O então governador anticomunista da Califórnia, Ronald Reagan, fez tudo que pode para impedir Angela Davis de lecionar na Universidade da Califórnia (UCLA) por ela ser declaradamente comunista. Sua competência como professora nunca foi questionada no meio acadêmico. Mesmo assim, ela foi demitida logo após a primeira aula, em que estavam presentes mais de dois mil alunos.
Ao banir Angela Davis da Universidade da Califórnia em1969, Ronald Reagan, “apresentou-a” aos Estados Unidos da América. Sua expulsão tornou-a conhecida. Houve mobilização de colegas de academia, do povo negro e de estudantes em sua defesa.
Fora da academia, Angela intensificou sua militância política e acabou acusada de conspiração, assassinato e sequestro por suposta ligação com uma tentativa de fuga do tribunal do Palácio de Justiça do Condado de Marin, em São Francisco, durante o julgamento de James McClain.
Os fatos
Tudo aconteceu no dia 7 de agosto de 1970. Seu amigo Jonathan Jackson, de 17 anos, em companhia de dois outros rapazes, invadiu armado o tribunal na tentativa de ajudar na fuga do réu James McClain, acusado de ter esfaqueado um policial.
Jonathan e seus amigos renderam todos que estavam no recinto e pegaram o juiz, o promotor e vários jurados como refém, gritando que queriam os “Irmãos Soledad” em troca.
Houve um tiroteio, o juiz foi morto. O promotor raptado ficou paralítico com um tiro da polícia. Os sequestradores também morreram e na mão do líder, Jonathan, foi encontrada uma arma registrada em nome de Angela Davis - pretexto suficiente para o estado da Califórnia decretar sua prisão e transformá-la em alvo de uma das maiores caçadas humanas do país.
A ativista era conhecida por sua luta pela libertação de presos políticos. E, durante o verão daquele ano, estava envolvida nos esforços do Partido Panteras Negras, grupo revolucionário de defesa dos direitos dos negros, para conquistar a apoio da sociedade para a libertação dos “Irmãos Soledad” - os militantes negros George Jackson (irmão de Jonathan Jackson, que invadiu o tribunal), Fleeta Drumgo e John Clutchette, presos na prisão Soledad, em  Monterey.
A prisão
Depois de passar dois meses fugindo, Angela Davis foi presa pelo FBI em Manhattan (NY), passou 18 meses em prisão preventiva, a maior parte do tempo na solitária, longe das outras detentas. Um movimento de solidariedade internacional levantou fundos para sua defesa.
John Lennon e Yoko Ono lançaram a música “Angela” em sua homenagem e os Rolling Stones gravaram “Sweet Black Angel”, cuja letra falava de seus problemas legais e pedia sua libertação.
Em meio à Guerra Fria, o processo teve repercussão mundial por envolver uma mulher negra jovem, bonita, culta, politizada, comunista assumida.
Nos longos debates na corte, não apenas o caso criminal envolvido veio à tona, mas uma grande discussão sobre a condição negra na sociedade americana. Manifestações diárias por sua libertação e absolvição aconteciam do lado de fora do tribunal e por todo o país, transmitidas ao vivo pela televisão.
Embora os jurados fossem todos brancos, a ativista negra foi inocentada de todas as acusações e libertada em 4 de junho de 1972.
Em liberdade
Livre, Angela passou um tempo em Cuba. Sua visita à ilha causou grande impacto entre a população negra num tempo em que expressões de identidade de cor eram bem raras. Suas credenciais revolucionárias permitiram aos nativos se identificarem de público com seus pensamentos, sem medo de serem taxados de contrarrevolucionários pelo governo cubano.
Nos Estados Unidos, Angela Davis por duas vezes, em 1980 e 1984, foi candidata à Vice-Presidência dos Estados Unidos, como companheira de chapa de Gus Hall, presidente do Partido Comunista americano, tendo votação irrisória.
Em sua história, também, a conquista do Prêmio Lenin da Paz em 1977-1978, o trabalho comoprofessora de História da Consciência na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, numerosos artigos, ensaios e livros.  Entre os mais recentes, “O Legado do Blues e o Feminismo Negro”, que enfoca a consciência feminista emergente no trabalho das primeiras mulheres do blues.
Nos dias atuais,  Angela Davis dedica-se à vida acadêmica e à pesquisa sem deixar de ser ativista. Seu espaço de luta é o movimento anticarcerário e a mobilização de mulheres. Em ambos, ela enfatiza que o preconceito racial continua muito presente, mesmo no país que reelegeu o presidente negro Barack Obama. "Pessoas que estão encarceradas dizem que um homem negro na Casa Branca não é suficiente para anular um milhão de homens negros no sistema carcerário".
Na tela grande
O documentário “Libertem Angela Davis”(Free Angela and all political prisoners)retrata a vida da ativista, em especial nos anos 70.
Sua sobrinha, Eisa Davis, assume o papel da ativista no documentário que, em muitos momentos, tem narração da própria Angela, hoje com 70 anos.
Como em uma conversa informal, ela narra como, aos 26 anos de idade, tornou-se a mulher mais procurada dos Estados Unidos, relembra os tempos de fugitiva, os tempos de cárcere, revisita os próprios sentimentos.

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