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Waldomiro de Deus

Waldomiro de Deus

Waldomiro de Deus Waldomiro de Deus (Itagibá, Bahia, 12 de junho de 19441 ) é um reconhecido pintor primitivista brasileiro que já expôs suas pinturas em diversos países como França, Itália e Israel. Foi premiado em 1983 com a Awarding the Statue of Victory pelo Centro Studi e Ricerche Delle Nazioni1 e em 2000 teve uma sala própria na Quinta Bienal Naifs do Brasil . O artista reside em São Paulo capital, no bairro de Pinheiros. A pintura de Waldomiro de Deus está carregada de brasilidade. O país inteiro está dentro dela. Esta presença manifesta-se, principalmente, em algumas direções: religiosa, política, histórica, das vivências, dos momentos produtivos, de lazer, de sonho e de alucinação. Como é impossível revelar todo o universo waldomiriano numa mostra de cerca de 30 obras, fizemos um recorte que remete ao essencial de seu universo telúrico e facilita a aproximação do público de uma arte brut, às vezes intensa como um tsunami e outras vezes leve como um vôo de pássaro. Esta mostra tem início com um guache sobre cartolina, técnica utilizada por Waldomiro de Deus no início de sua carreira. Oriundo do interior baiano, a primeira coisa a impactar o artista foi a paisagem, a flora, a fauna, a natureza. Utilizou o guache e a cartolina porque estes foram os materiais que ele encontrou na casa de um antiquário de São Paulo para o qual trabalhou como jardineiro. Localizamos este trabalho na coleção particular de Américo Pellegrini Filho, professor e pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da USP, responsável, juntamente com o folclorista Rossini Tavares de Lima, pela primeira exposição individual de Waldomiro de Deus, em 1962, no Parque Água Branca, em São Paulo. Nesta exposição, Waldomiro conheceu o decorador Terry Della Stuffa, que adquiriu 10 das 48 obras expostas. O especialista em arquitetura de interiores, que tinha clientes na alta sociedade paulista, forneceu ao artista, na sequência, telas e tubos de tinta a óleo, materiais ainda não utilizados por ele naquela altura e o abrigou em sua própria casa por um período de dois anos. Waldomiro considera o decorador o “primeiro anjo” de sua vida. Foi em 1966 que Waldomiro de Deus conseguiu, no Brasil, maior visibilidade para sua obra ao participar, entre outras, da I Bienal Nacional de Artes Plásticas, realizada em Salvador, Bahia. Nessa mostra Waldomiro expôs três pinturas referenciadas em viagens interplanetárias, reveladoras de seu interesse pelos fatos marcantes do momento. Data deste ano suas primeiras exposições coletivas no exterior, realizadas na Rússia, Polônia e França (Brésil Imprévu). Estas participações abriram-lhe as portas da IX Bienal Internacional de São Paulo. A partir de então sua participação em mostras internacionais se intensificou. Três desenhos aqui expostos, datados de 1967, revelam o surgimento em sua obra de uma iconografia particular marcada pelo simbólico, pela dimensão religiosa e pelo exótico. As participações em mostras internacionais despertaram em Waldomiro o desejo de viajar. Em 1969, tirou passaporte e iniciou uma série de viagens que se prolongaram até 1973. Permanece em Paris o suficiente para aprender a se defender em francês e a ter um de seus trabalhos adquiridos por Brigitte Bardot. Depois de visitar uma exposição sua na França, o escritor Henry Miller publica no jornal Planète, de Paris: “Este brasileiro de cor, Waldomiro de Deus, que mal sabe ler, cria seus personagens misturando catolicismo, macumba e reminiscências folclóricas. Cada uma de suas composições cromáticas revela um mundo dos mais significativos símbolos artísticos”(citado por Jos Luyten em “Eis Waldomiro de Deus, o melhor naïf brasileiro”, catálogo da exposição individual realizada no SESC Vila Nova, São Paulo, 1972). Este é um dos primeiros textos de uma fortuna crítica considerável que Waldomiro de Deus colecionou ao longo de sua carreira, que completa meio século. Entre os críticos que demonstraram maior apreço por sua obra figuram Mário Schenberg, que o apoiou vigorosamente e que o artista considera o seu “segundo anjo”. Theon Spanudis, que o julgava “um valioso e originalíssimo artista”, Olney Krüse, que o proclamava mestre, “um exemplo da melhor e mais autêntica e sincera arte brasileira”; Walmyr Ayala, que se referiu a ele como “um verdadeiro fenômeno que a pintura brasileira tem que rever e assimilar”; Lélia Coelho Frota, para quem Waldomiro “é um dos grandes pintores vivos do Brasil”, Pierre Santos, Oscar D’Ambrósio, Paulo Klein, Jos Luyten, Sol Biderman e outros. Sobre ele, escreveu Jorge Amado em 1979: “É realmente de Deus esse Waldomiro que reinventa a vida com a pureza de sua ingênua sabedoria. Um poeta do povo, um mágico. Jogral a misturar as cores como quem faz versos ou inventa um passo de dança, recriando a vida com amor, Waldomiro de Deus nos oferece com sua pintura o que de melhor existe: o gosto de viver, a fraternidade, a ternura”. Durante as viagens que empreendeu no início dos anos 70, Waldomiro pintou “Em Israel” (1972), obra rara pertencente à Coleção Ladi Biezus e que integra esta exposição. A presença de Waldomiro em Israel, parte do tempo num convento de freiras francesas, o marcou profundamente. Místico, afirma que foi lá que sentiu, “num raio de luz azul que veio do céu, a presença de Deus”. Retornando ao Brasil, casa-se, em Osasco, com a jovem Maria de Lourdes da Hora, hoje Lourdes de Deus, pintora, com quem tem seis filhos, todos com nomes bíblicos: Rebeca , Amomm , Edomm, Edemm , Naara-Tov e Sara. As décadas de 70 e 80 assistiram à mitificação do artista Waldomiro de Deus, que ganhou grande notoriedade em função de seu comportamento performático, das roupas extravagantes que passou a usar, sobretudo depois da revolução de maio de 1968, em Paris, e do Festival de Woodstock, em 1969, numa fazenda da cidade de Bethel, no Estado de Nova York. Em sua casa, em Osasco, tinha um caixão de defunto dentro do qual costumava descansar. Chegou-se a dizer que Waldomiro era o artista brasileiro mais conhecido no exterior. E que, numa exposição realizada na Europa, Salvador Dali o teria aclamado “gênio”. Descontados eventuais exageros, a verdade é que Waldomiro tornou-se um dos artistas mais conhecidos pelo povo brasileiro, em decorrência de sua forte presença na mídia. Centenas de escolas promovem entre seus alunos releituras de suas obras e a cidade de Matão, no interior de São Paulo, decorou uma de suas ruas principais, nas comemorações do Corpus Christi do ano passado, com reproduções de duas obras gigantes do artista num trabalho realizado com pós de vidro coloridos, à maneira de tapete, por 85 estudantes locais. Em Goiânia, não são poucos os relatos de que Waldomiro era capaz de atos extraordinários durante orações que promovia com dezenas ou mesmo centenas de pessoas, geralmente em fazendas, em morros. A obra “Oração no mato”, de 1992, remete a estas sessões em que folhas e caules se iluminavam aos olhos dos participantes. Estudando sua obra e sua religiosidade, Maria Filomena Gonçalves Gouvêa apresentou, em 2002, dissertação de mestrado no Departamento de Filosofia e Teologia da Universidade Católica de Goiás subordinada ao título “O profeta da pintura entre Deus e o outro – Um estudo dos aspectos sócio-cultural e religioso na obra artística de Waldomiro de Deus”. O pintor foi ainda tema de outra dissertação de mestrado, apresentada por Oscar D’Ambrósio na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, da qual resultou o livro “Os pincéis de Deus”, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Editora UNESP. Waldomiro foi ainda tema do cordel “Vida, Amor e Glória de Waldomiro de Deus”, escrito por Brahama Boulitreau, editado pelo Colégio Anglo de Osasco, em 1983, e de trabalhos acadêmicos na Universidade de São Paulo. Nos anos 70 e início dos 80, Waldomiro de Deus, depois de um périplo pela Europa, Ásia e América Latina, dedicou boa parte de sua pintura à cultura popular brasileira, à paisagem interiorana, a cenas pastoris e a temas religiosos tais como a obra “Final 66”, de 1976. Na segunda metade da década, o artista começou a criar trabalhos de dimensões maiores alguns dos quais se encontram nos acervos da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte Brasileira da FAAP, Museu de Arte Contemporânea da USP, MuBE, Pinacoteca de São Bernardo do Campo, Pinacoteca de Rio Claro e outras instituições. A década de 80 foi marcada pela ascensão dos temas religiosos (“Assunção de Nossa Senhora”, 1985), alguns de viés polêmico como suas iconografias de Nossa Senhora, às vezes apresentada de mini-saia, e de Jesus Cristo, figurado vestindo bermuda. Nos anos 90 persistem os temas religiosos, tais como se vê na pintura “Oração no mato”, carregado de misticismo, e em “Coral no planeta celestial”, obra em que o céu é apresentado como um planeta povoado por anjos em vários planos e em torno do qual gravitam animais, figuras geométricas e outros anjos sobre um azul profundo; esta obra evidencia as qualidades do artista no tocante à cor, às formas e aos ritmos, ao repouso e ao movimento. Mas o pintor discute também em suas telas a violência urbana, as agressões à natureza, os seqüestros e as chacinas, sem abandonar seus anjos, pássaros, flores, pastores e rebanhos. A primeira década do novo milênio, mais extensamente apresentada nesta mostra, é de grande riqueza temática. Dentro da tendência de problematizar tragédias de monta, Waldomiro pintou o desmoronamento das torres gêmeas de Nova York em “Águia abatida” ; o atentado numa estação de trens de Madri em “Pátria ferida”; o acidente ocorrido durante as obras de uma estação do Metrô em São Paulo, recriada em “O acidente na construção do Metrô Pinheiros”; uma chacina de periferia; o tsunami que atingiu o Japão após terremoto de 8.9 graus, este ano, em “Japão 8.9 Tsunami”. O viés religioso continua forte em sua obra e explicitado nesta mostra nas pinturas “Arrebatamento de Elias”; “O céu espera por um milagre”; “Deus proverá” (expressão sempre pronunciada por Waldomiro em situações de privação); “Nossa Senhora da Copa”, em que a religiosidade mistura-se com aspirações populares; “Madona”, tema recorrente na obra do pintor. A ação política continua presente em seu trabalho, que chama a atenção para desvios da ética, para o suborno e a corrupção. “Ensina-me a corromper”, “Privilegiados pela corrupção” e Corrupção na educação”, incluídos nessa mostra, são exemplos desta série. Próximos desta linha são os trabalhos de conotação social, incentivadores de boas ações e de sentimentos coletivos tais como “As mulheres de Cajamar”, “Tá chovendo...”, “Mobral”, “Recebendo um coração , “Reunião de índios”. A temperatura sobe quando o artista aborda temas transcendentes, surreais, apocalípticos tais como “Poder e ganância” e “Direito Satânico”, que mesclam aspectos religiosos, éticos, políticos, simbólicos. Estas telas de impacto surgem em meio a outras de natureza patriótica tal como “Véspera de 7 de Setembro” e de outras impregnadas de romantismo e de alegria de viver: “Suplica de amor”, em que o próprio artista aparece numa cena amorosa sobre um tronco de árvore, em meio aos pássaros, num plano superior; “Panicum de flores”, de intenso lirismo edênico; de “Venha comigo, te darei flores”, de tom confessional e de promissão amorosa. Waldomiro de Deus é um valor emblemático no contexto da arte brasileira e sua obra faz jus à sua popularidade. Como afirmou o crítico Walmir Ayala, sem ela, qualquer panorama da arte brasileira será incompleto. ENOCK SACRAMENTO

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