sábado , dezembro 15 2018
Capa / Religião / Etnografia religiosa iorubá e probidade científica
Etnografia religiosa iorubá e probidade científica

Etnografia religiosa iorubá e probidade científica

Clothing Styles, Kingdom of Loango, late 17th cent  D O Dapper, Description de l Afrique  (Amsterdam,1686) Retomo, trocando duas palavras, o título de um artigo de três páginas escrito pelo saudoso Bernard Maupoil, cuja referência retiro da Bibliographie africaine de Fa, publicada no início de seu livro sobre La géomancie à l’anciene côte des esclaves (Maupoil, 1943:19). Não tive a oportunidade de ler sua Ethnographie dahoméene et probité scientifique, publicada em 1937 na Afrique Française, mas acho o título sugestivo e ele me incita a tecer considerações semelhantes sobre a etnografia religiosa iorubá. As definições dadas aos orisá, os deuses iorubás, foram efetivamente, a partir de determinada época (1884, para sermos precisos) embelezadas com detalhes tão pitorescos quanto inexatos. Essas definições foram a seguir eruditamente retomadas, doutamente citadas e entusiasticamente comentadas pela maioria dos que a partir de então escreveram sobre o assunto. Ao longo de minhas pesquisas, pude constatar de que maneira informações expressas muitas vezes descuidadamente por pessoas, respeitáveis noutros domínios, criaram uma tradição aparentemente lógica, mas enganadora. Com o tempo foi-se assim acumulando vasta documentação escrita, tida como erudita porque baseada em textos, a única fonte válida aos olhos dos letrados, mesmo que esses textos fossem inspirados por escritos anteriores incorretos e até contrários à verdade. Essas informações foram copiadas e publicadas inúmeras vezes, sem que sua autenticidade fosse posta em dúvida. O padre Labat já constava (Labat, 1831:143), e não sem ironia, em 1772, “que certas informações foram dadas por vários autores” e acrescentava: “mas talvez não tenha sido senão a opinião do que as escreveu primeiro e que os outros seguiram e copiaram sem se importar se estavam bem ou mal fundadas”. Eis porque somos obrigados a pôr em questões neste artigo certas informações que estão na origem de sistemas teogônicos e cosmogônicos eruditos e a constatar que, estando desprovidas de fundamentos, não passam de gratuidades ou de construições mais ou menos habilidosas do espírito. Lendas da Criação do Mundo dos Iorubás Entre os Iorubá existem duas versões sobre a criação do mundo. Elas correspondem às tradições de duas cidades que disputam a hegemonia do mundo iorubá: de um lado Ifé, chamada de berço da civilização, e de outro Oyó, que deteve o governo efetivo. Os habitantes dessas duas cidades divinizaram os fundadores das dinastias que nelas reinaram – Oduwduwá para os primeiros e Oranmiyan para os segundos – transformando a tradição histórica da fundação das duas cidades na tradição da criação do mundo. Tanto numa quanto na outra o herói criador do mundo chegou do Além tendo recebido do Deus Supremo, Olodumaré, o saco da criação contendo uma substância escura, de natureza até então desconhecida. Essa substância, lançada sobre a superfície das primeiras águas, formou um montículo de terra sobre o qual pousou uma galinha com cinco dedos. A galinha começou a arranhar o monte com os pés e com o bico e espalhou a matéria que recobriu pouco a pouco as águas e formou a crosta terrestre, da qual Oduwduwá, para Ifé, e Oranmiyan, para Oyó, se tornaram senhores. No caso de Ifé, a lenda se complica com uma rivalidade entre Obatalá (também chamado Orisàlá), enviado por Olodumaré para criar o mundo e Oduwduwá, que se aproveitou de um momento de intemperança de seu rival, o qual, tendo bebido em excesso vinho de palma quando estava a caminho para cumprir a sua tarefa, embriagou-se, caiu e adormeceu. Oduwduwá, que vinha atrás, surrupiou o saco da criação e tornou-se assim, ele próprio e em seu lugar, o senhor do mundo. Mais tarde, quando se reencontraram, Oduwduwá e Obatalá discutiram e lutaram ferozmente. Detalhes sobre esse assunto foram dados em outra obra (verger, 1965: cap.II e III). Essas relações tempestuosas entre divindades, como já registramos, são transposições para o domínio religioso de acontecimentos de caráter histórico, que poderão ser resumidos da seguinte forma: Oduwduwá, o fundador da cidade de Ifé, teria encontrado à sua chegada uma população autóctone já instalada naquelas paragens, os Igbô, cujo rei teria sido Obatalá (Orisàlá). Oduwduwá, depois de ter vencido Obatalá, se teria apossado de seu reino, da mesma forma como na lenda ele teria roubado o saco da criação, tornando-se senhor do mundo em detrimento de Obatalá. Essa lenda da criação do mundo por Oduwduwá só se tornou conhecida do grande público e dos etnólogos em 1912, quando Frobenius publicou os resultados de sua viagem à África (Frobenius, 1912:283). A lenda da criação do mundo por Oranmiyan tinha já sido publicada por Jean Hess na Revue de Paris em 1896 (Hess, 1896:603-606) e em livro dois anos mais tarde (Hess, 1898:117-176). Mas ela só interessou aos amadores de literatura exótica. Ficou e permanece totalmente ignorada do mundo da antropologia, ainda que 58 páginas do livro de Hess constituam o primeiro documento publicado acerca da história dos Iorubá, recolhida pelo autor de Oyó, “desde que aí se refugiou em 1893, depois de ter sido atacado, roubado e ferido na terra dos Bariba, ao norte de Savé, e que seus homens, batendo em retirada, o abrigaram numa aldeia na fronteira iorubá. Daí, ele foi recolhido e tratado na missão católica de Oyó, onde foi o primeiro europeu e registrar os cantos tradicionais sobre a criação do mundo, o nascimento do povo iorubá e a história de seus reis”. Foi preciso esperar até 1921 para que The history of the Yoruba fosse publicada pelo reverendo S. Johnson (Johnson, 1921), cujo manuscrito data de 1897, remontando quase à mesma época das publicações de Jean Hess.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*