segunda-feira , setembro 24 2018
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Miriam Alves

Miriam Alves

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Miriam  Alves é  escritora, poeta  e  colabora com o Quilombhoje  Literatura  desde a  década de 80,autora dos livros:Momentos de Busca( 1983), Estrelas  do dedo(1984),Mulher Mat(r)iz:Prosas de Miriam Alves(2011) entre outros.
 Escritora de  projeção internacional   com  trabalhos que constam em antologias e teses em Universidades no  Brasil  e  exterior. Miriam  traz  a força feminina na  leveza de seus  escritos  afroliterários. Em   entrevista concedida ao Blog  Literatura Subversiva, a escritora  compartilhou algumas   reflexões  sobre meios de  comunicação , difusão da  literatura Afrobrasileira, gênero e  literatura, trajetória   internacional  e pesquisa.
 
Com o  advento  dos  meios  de  comunicação independente  a  difusão  literária  tem   crescido. O  que a  senhora  pensa  sobre isso ?
Os meios de comunicação independente sempre foram uma constante na sociedade brasileira. Nós os negros  afrodescendente sempre nos utilizamos deste recurso, haja visto os jornais do que hoje chamam de imprensa negra, difundidos nas décadas de 30 a 70 do século passado. Muitos deles feitos por organizações negras circularam na contra mão de que se costumou chamar de imprensa oficial e traziam matérias sobre a vivência  principalmente urbana dos negros e divulgavam também em suas paginas poemas e contos. O aparecimento de Cadernos Negros em 1978 pode ser considerado também como um meio de comunicação independente em forma de livro que persiste até hoje 34 anos depois.Atualmente com o advento da Internet, blog, site e páginas de relacionamento esta comunicação ficou mais dinâmica atingindo rapidamente um público não só no Brasil, mas também em outros países. Esta ação ajuda a divulgar não só a literatura,  mas também o pensamento e reflexões de intelectuais negros e brancos que pensam um país mais abrangente verdadeiramente democrático racial nas oportunidades e na ideias.  Além de denunciar o racismo que não é somente no impedimento de entrar em restaurantes, mas principalmente no pensamento e formas de procedimento às vezes não tão explícito assim. Como por exemplo, a morte em massa da população jovem negra que é vista com naturalidade pelos meios de comunicação, digamos formal e oficial.
Miriam Alves você poderia falar um pouco sobre sua  trajetória   internacional ?
A trajetória internacional foi consequência do trabalho e da militância literária que Quilombhoje e Cadernos Negros praticaram  nas décadas de 70 e 80 que apesar de não ter a visibilidade no Brasil chamou a atenção de vários estudiosos e estudiosas internacionais,  na Alemanha, Estados Unidos, França, Inglaterra. Enviávamos livros para as universidades jornais e passamos a ter contato por carta, na época não tinha esta comunicação rápida de e-mail e redes sociais, aliás, agilizam muito os contatos. Alguns destes pesquisadores vinham ao Brasil procurar nossos livros em livrarias e não os encontravam e mais que isto normalmente o vendedor e o livreiro informavam que este tipo de escrita não existia no Brasil porque os negros brasileiros não escreviam.Neste período eu estava fazendo uma pesquisa sobre a existência das escritoras negras e com o resultado comecei a organizar uma antologia de poemas que enviei para algumas editoras brasileiras que me devolveram alegando falta de interesse editorial e falta de qualidade literária e numa atividade sobre Luiz Gama encontrei uma destas pesquisadoras americanas que estava procurando os Escritores Negros. Ao tomar contato com o livro inédito enfim nós fizemos um acordo para ser publicado bilíngüe nos Estados Unidos.Neste mesmo tempo encontrei com outra pesquisadora americana Carol Boyced David, que também procurava estabelecer contato com escritoras negras brasileiras, ela me entrevistou, depois conversamos longamente e no ano seguinte me enviou convite para participar de um Congresso Internacional de escritoras afro-americanas e caribenhas. Nesta oportunidade pude ver a repercussão do trabalho de escritoras e escritores negros que escreviam em CN e outros. Visitei as bibliotecas de algumas universidades e lá estávamos nós e nossos livros. Emocionante e ao mesmo tempo triste saber que lá fora éramos respeitados como escritores, aqui no Brasil éramos negados como escritores e cidadãos negros.  Uma experiência interessante foi ir como escritora visitante para Universidade do Novo México nos Estados Unidos dar aula de literatura negra e cultura afrobrasileira e encontrar brasileiros que passaram a ser meus alunos questionando a existência da literatura negra. Bom, são muitos capítulos desta minha trajetória internacional e cada um deles me trouxe conhecimento, experiência e reflexões  importantes para minha vida e para minha escrita.
 
A senhora  lançou o livro  “Mulher  Matiz”  no   XIV Seminário Nacional Mulher e literatura e V Seminário Internacional Mulher e Literatura  na   Universidade de Brasília (UNB). Em sua opinião qual é o papel político da mulher negra no   campo  literário ?
 
Ainda estou refletindo sobre a experiência deste evento que se propunha a homenagear as escritoras afrobrasileira. O que a princípio é um marco na história do próprio evento que tem como marca reverenciar mulheres escritoras como Clarice Lispector, Helena Parente, Adélia Prado sem dúvidas grandes nomes na literatura brasileira e internacional. A iniciativa era boa e vinha na base do reconhecimento e revisão que o movimento feminista faz das questões relativa a mulher e que no surgimento do movimento especificidade da vivência da mulher negra foi ignorada. Acontece que ainda existe um ranço nas relações e no pensamento nacional no que tange ao lugar de negros e negras dentro da sociedade. E isto ficou evidente desde o cabeçalho do programa do evento até o momento da mesa oficial da homenagem.Explico: no programa constava o nome de todas as escritoras brancas homenageada nas edições anteriores e uma explicação da homenagem coletiva as afrosdecendentes. Até ai tudo bem só que os nomes das afrosdecendentes não eram nomeadas ou seja: Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Lia Vieira, Geni Mariano Guimarães, Esmeralda Ribeiro, Cristiane Sobral e Miriam Alves. Pode parecer um detalhe menor, mas não é cada uma de nós é escritora reconhecida em determinados circulo cultural, nacional e internacionalmente e constávamos sobre a bandeira anônima do coletivo de escritoras Afrobrasileiras. Como não bastasse na homenagem oficial não teríamos direito a fala nem para agradecimentos num evento que tinha como palavra de ordem “O Poder da Palavra”.O que isto significou para mim a constatação que na sociedade em que vivemos estão sempre determinando um lugar de exclusão para negros e negras, mesmo quando vem imbuído em um ato aparentemente de inclusão. Resumindo as escritoras brancas tinham o nome incluído no programa e fora Clarice que foi homenageada postumamente todas as outras tiveram o direito a homenagem e fala.O que restou desta experiência? É um enorme grito de alerta para se estar atenta sempre e não se iludir com o canto da sereia e estar sempre nos braços de Iansã, Yemanja, Oxum e outras deusas minhas que aconselham e alertam.Respondendo sua pergunta o nosso papel político enquanto escritora é escrever sem escamotear emoções e sentimentos e dizer o que viemos para dizer sem medo e não nos iludirmos como rapapés, porque no fundo o que fica é a força da palavra. A palavra que é uma força perigosa porque penetra nas consciências.
Quem são suas  autoras e autores   prediletos  ?
 
Desculpe-me,eu costumo não responder esta pergunta. É lógico que tem meus prediletos tanto da literatura negro-brasileira, como da literatura brasileira como internacional, mas acredito ser uma escolha pessoal.
 
  Qual é a  importância  dos   Cadernos  Negros  na  sua  carreira  literária ?
 
CN foi o encontro com escritores que tinham as mesmas inquietações que eu trazia na minha bagagem vivencial e de escrita. Ninguém me recriminou por que meus versos traziam os sentimentos e emoções provindos na minha existência de mulher negra brasileira. E mais nas discussões periódicas dos textos aumentaram a minha certeza de estar no rumo certo. Além de CN ter se transformado num excelente veículo de divulgação quebrando as barreiras editorias que são erguidas a nós.
A  senhora  tem  anseio em  publicar  romances  ou  prefere  continuar  publicando poesias  e  contos ?
 
Poemas, contos, crônicas, romances, ensaios e textos opinativos são ferramentas as quais nós escritores utilizamos para veicular as mensagens que gostaríamos de escomunicar. E ferramentas estão ao nosso serviço e delas nos utilizamos dependendo do que e como se quer comunicar. Assim sendo nos meus inéditos têm todas estas possibilidades técnicas de comunicação a publicação em livro é que fica difícil. Tenho um romance que já foi enviado e devolvido por várias editoras. Aqui no Brasil por não ser a linha editorial das editoras que mandei e nos Estados Unidos por ser de difícil tradução. O que me resta fazer é juntar um dinheiro e publicar de forma independente ou em parceria com editoras que fazem este serviço.
Para  a  senhora o  impacto   de gênero na  produção   escrita  inibe  ou incentiva  a   presença  de    mais  mulheres  negras  na cena   literária ?
 
Não sei se entendi bem quando você pergunta impacto. Mas acredito que as escritoras negras principalmente, ficam  mais motivadas quando entram em contato com os textos escritos por outras escritoras com trajetórias, diferentes,  semelhantes ou iguais. E além do conteúdo falar mais de perto as nossas emoções e anseios. Eu fico mais incentivada quando leio Lia Vieira, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Elizandra Souza, Priscila Preta, Cristiane Sobral, Geni Mariano Guimarães, Claudia Walleska, Mel Adún, Nina Silva e outras incluindo aqui as africanas como Odete Semedo e Isabel Ferreira é como se fosse um diálogo. Às vezes amistoso e outras vezes de opiniões contrárias que me levam a reflexões e novos textos e poemas. Acredito que nossa presença no cenário da literatura negrobrasileia e literatura brasileira motivam outras a tirarem seus textos da gaveta e se arriscarem a publicar, os meios possíveis estão ai, é só encarar.
 
 
A senhora acredita que a difusão da literatura afro-brasileira tem crescido?
 
A difusão vem crescendo sim, nos meios acadêmicos com a existência de teses de doutorado e mestrado, congressos e encontros. Na UFMG aconteceu, alguns anos atrás, a iniciativa pioneira através do NEIA, Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade- ,  a elaboração do site Literafro com o mapeamento desta produção centenária que culminou com a Antologia Crítica:  Literatura e Afrodescendência no Brasil, organizado pelo professor Eduardo de Assis Duarte e a Prof Maria  Nazareth Soares Fonseca, com a participação de vários Professores de Universidades do Brasil e  internacionais. Este é um marco importante que repercutiu na mídia oficial,  a ponto do poeta Ferreira Gullar num artigo na Folha de São Paulo afirmar a inexistência de uma literatura negra ou afrodescendente e posteriormente o jornal Globo eleger esta antologia como um dos melhores livros publicados entre dez no ano de 2011. Afora isto existe o trabalho via mídia de internet com vários sites e blogs respeitado como do Ricardo Riso e o seu que divulgam, discutem e são bem acessados. Existe todo um trabalho coletivo de difusão principalmente paralelo aos cartéis culturais preponderantes na sociedade brasileira, é isto que conta muitas vezes.
 Que mensagem  a  senhora pode   deixar   para  mulheres  negras  que  desejam  escrever e  publicar  livros ?
 
Acho que nas linhas anteriores esta mensagem está explicita ou implícita. Digo: Vá enfrente a palavra que é uma arma poderosa. Escrevam. Escrevam. Publiquem nos meios de divulgação existentes. Não desanimem com as críticas, com a falta de entendimento das pessoas frente a sua escrita. Reflita e volte ao papel ou ao teclado do computador.

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